Em uma conversa com o amigo Hugo, professor de História, fui
solicitado a listar textos da literatura brasileira que dialogassem
diretamente com a História do Brasil. O assunto abre espaço para
muita discussão, principalmente sobre as diferenças entre vida
material, fato histórico, discurso histórico e ficção literária,
que são instâncias distintas por vários fatores.
Inicialmente, considero necessário destacar que as principais
motivações da leitura "literária" são:
a) o prazer estético proporcionado por ela, que pode ser
sintetizado pelo apreço ao trabalho com a linguagem, com as
palavras e as imagens por elas criadas;
b) no caso da poesia, há o gosto por um universo discursivo
desprovido de linearidade temporal, de lógica, de coerência
material, em que a linguagem se entrega à sensibilidade do olhar,
do pensamento, da memória e... da própria linguagem;
c) no caso da narrativa, motiva-nos o interesse pelos enredos e
pelas personagens desenvolvidos por prosadores competentes, a
possibilidade de 'viajar' para lugares e épocas remotos por meio da
prosa.
Digo que esses são os principais, por que apontam para a essência
da literatura, que é uma expressão artística fundada na palavra.
Mas é possível ler e ainda beneficiar-se utilitariamente com isso.
Essa questão da utilidade é muito debatida, pois a ideia de Arte
está associada a um desligamento das funções práticas e utilitárias
de outras ações humanas, como a política, a culinária, a
arquitetura etc.
De minha parte, não acho que as Artes, e dentre elas a Literária,
sejam desprovidas de função prática, pelo contrário, mas, embora a
utilidade da Literatura seja fácil de perceber, esta não é sua
finalidade principal. Assim, se aqueles são os motivos principais,
os secundários seriam:
a) evadir-se por meio da leitura da pressão exercida pelo
social;
b) conhecer a cultura de um país, região etc.;
c) perceber as transformações na vida humana, pois o contato com
textos mais ou menos antigos permite tal constatação;
d) passar o tempo com alguma distração;
e) ampliar nosso conhecimento cultural, requisito exigido em certos
grupos sociais;
etc. etc.
Outra coisa, é importante compreendermos que ao longo dos séculos o
conceito de literatura modifica-se, portanto, cabe aqui um lembrete
(necessariamente simplista):
i) Da Antiguidade Clássica até o fim da Idade Média a ideia de
'textos literários' é abrangente, englobando as manifestações em
verso (textos épicos e líricos) e prosa (crônicas, relatos,
ensaios, tratados, romance medieval etc.). O conceito moderno de
literatura - aplicado a textos que possuem um arranjo
especial da linguagem e são formalizados em certos gêneros
específicos - não existia, portanto, falar em 'literatura' até este
período implica em englobar todo tipo de texto considerado
'importante'. Nota-se que tal classificação é muito mais valorativa
do que objetiva.
ii) Entre os séculos XVI e XVIII, vamos assistir a mudanças no
fazer literário (tanto de autores quanto do público leitor, agora
ampliado), o que começa a acentuar a distinção entre textos
não-literários e literários. Nesse período, o verso, que era a
forma 'literária' por excelência, passa a dividir atenção com a
prosa, que era uma forma 'menor'.
iii) A partir do XVIII, o gênero romance se afirma como a faceta
literária da burguesia dominante. A poesia tomará novos rumos, com
novas experimentações de ordem técnica (ritmo, metrificação etc.),
e em consonância com as mudanças históricas o conceito de literário
passa a ter o sentido de hoje: um conjunto específico de textos
ficcionais e/ou distanciados da referencialidade sócio-histórica,
produzidos com a intenção clara de serem 'literários' , sendo
divulgados e consumidos como tais.
Mas deixemos de lado isso e vamos à lista. Claro, como toda lista,
esta aqui é subjetiva, incompleta e questionável. Mas entendam como
um roteiro de leituras para quem quer boa literatura sem abrir mão
do diálogo com o referente histórico e social.
Brasil Colonial: Gregório de Matos; padre Antônio
Vieira.
Ruptura com Portugal e Império: Cláudio Manoel da
Costa; Tomás Antônio Gonzaga.
Transição para a República: José de Alencar;
Manuel Antônio de Almeida; Machado de Assis.
República Velha: Monteiro Lobato; Lima
Barreto.
República Nova: Graciliano Ramos; José Lins do
Rêgo.
ABAIXO, SEGUEM COMENTÁRIOS SOBRE A RELAÇÃO ENTRE TAIS AUTORES E O
CONTEXTO SOCIAL E HISTÓRICO:
- Brasil Colonial: Gregório de Matos. Há ainda os cronistas
(relatos de viagem, textos jesuíticos), mas esses não são textos
"literários", pois têm caráter de registro, de relato, mas são
também estudados em Letras, pois são os primeiros registros
escritos da fauna, flora, povo, geografia e da vida nas terras
desse Novo Mundo. Há ainda os Sermões do padre Antônio
Vieira, peças oratórias que ajudam a compreender o pensamento
dominante (sua afirmação e contestação), o modelo administrativo, a
influência da Igreja e os dilemas aqui vividos, os Sermões
impressionam também pela forma como a língua portuguesa amadurece e
atinge níveis expressivos impressionantes com Vieira.
- Ruptura com Portugal e Império: os autores do Arcadismo se
inserem no processo de ruptura com a Corte e registram o
amadurecimento do sentimento de nacionalidade que os habitantes
daqui vão desenvolvendo. Se a identidade é uma construção por
oposição a um 'outro', o ser europeu/português serve de contraponto
ao ser brasileiro e alguns poetas afirmam isso, ao eleger como
matéria de seus poemas a natureza tropical, a sensibilidade do
brasileiro, nossa 'cor local' etc.
- Tomás Antônio Gonzaga: em Cartas Chilenas denuncia de modo
cifrado (muda os nomes das pessoas e lugares) os desmandos e a
incompetência do governador mineiro contemporâneo do autor; em
Marília de Dirceu, o pastor/poeta que enamora Marília deixa
transparecer os ideias ilumistas de razão, natureza e verdade (ver
Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira) que faziam a
cabeça de nossos intelectuais (todos os autores desse período são
intelectuais e compõem o quadro administrativo das Minas
Gerais).
- Santa Rita Durão (Caramuru) e Basílio da Gama (O Uraguai) são
autores (distintos ideologicamente) que em seus poemas tratam da
relação portugueses, índios, franceses/holandeses etc. Revelam a
visão oficial sobre tais assuntos e começam a construir certas
alegorias que farão parte do imaginário brasileiro: a natureza
exuberante, o índio guerreiro, o colonizador predestinado a
construir aqui um paraíso terrestre... Mas dê preferência ao
Gonzaga.
Ler o Literatura e Sociedade (ensaios), de Antonio Candido (crítico
e historiador de base sociológica) que é uma profunda interpretação
do país a partir da produção literária que vai se firmando por
aqui.
- Transição para a República: os autores do Romantismo e do
Realismo retratam a sociedade brasileira desse período. Os
românticos idealizam a pátria, e o espírito burguês aparece aqui em
sua totalidade. Autores como Bakhtin e Lukács afirmam que o romance
é o gênero burguês por excelência, ou seja, é o que melhor revela a
face da sociedade burguesa.
- José de Alencar: Senhora ou então Lucíola - são livros que
tematizam o amor romântico, suas idas e vindas, a idealização do
amor e da mulher, mas deixam entrever hábitos e costumes sociais
reveladores da formação do caráter nacional.
- Machado de Assis: ler tudo dele, seus contos e romances (Brás
Cubas, Quincas Borba...), Machado é o autor que melhor define o
caráter nacional e que melhor radiografa a sordidez da sociedade (o
apadrinhamento, o arrivismo, os preconceitos de classe etc.).
Após ler esses autores, deve-se ler o Roberto Schwarz (crítico
literário marxista) que faz uma análise de Alencar e Machado que é
um clássico e uma referência fundamental para o pensamento social e
político do Brasil. Os livros são: Um mestre na periferia do
capitalismo & Ao vencedor, as batatas. Imperdível.
Mais romances:
Memórias de um Sargento de Milícias (M. A. de Almeida): primeiro
retrato crítico-humorístico do subúrbio carioca, nele encontramos o
espírito festivo-carnavalesco da população, a malandragem, os
terreiros etc.
O Cortiço (A. Azevedo): positivismo literário para defender a tese
de que o português que vem para o Brasil pode correr o risco de
rebaixar-se, devido aos prazeres da terra: a comida, a cachaça, o
samba e a mulata (estereótipo típico do positivismo, mas essencial
para entender como a classe dominante, ao qual pertence o autor,
compreende certas questões particulares à formação nacional).
Há ainda os romances não-urbanos de José de Alencar: O guarani
(romance histórico), Iracema (alegoria poética da formação do
país), O tronco do ipê & O Sertanejo (regionalismo) etc.
Sobre os poetas do período, comentarei depois.
- República Velha: os autores e obras que mais utilizaram o
processo de implantação da República no país como matéria literária
foram:
Monteiro Lobato: Cidades Mortas (registro da decadência do Vale do
Paraíba e do ciclo do café), Negrinha e Urupês (os livros 'adultos'
de um autor hoje rotulado como infantil).
Lima Barreto: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (raio X da
sociedade republicana com tom de denúncia e desvelamento da
hipocrisia política e cultural do país), minha dissertação de
mestrado é sobre ele, vejam em
http://www.scribd.com/doc/15109828/DISSERTACAONAINTEGRA
Há dele ainda o Triste Fim de Policarpo Quaresma, crítica ao
espírito ufanista do início do séc. XX (Conde Affonso Celso) e uma
investida cáustica na figura de Floriano Peixoto e da elite
política do período.
- República Nova: aqui é bom ler os autores do chamado
Regionalismo de 30:
Graciliano Ramos: São Bernardo (análise profunda da brutalidade
desumana do capitalista e do capitalismo) e Vidas Secas (retrato da
ignorância socialmente fabricada e denúncia da exploração que os
indivíduos bestializados sofrem).
Rachel de Queirós: O Quinze (sobre os efeitos da seca sobre os
indivíduos).
José Lins do Rego: Fogo Morto (sobre o declínio dos senhores de
engenho).
Há muito mais, mas esta lista já dá um painel geral suficiente para
tratar do diálogo entre Literatura e Sociedade.
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