Home Data de criação : 08/12/13 Última atualização : 10/01/29 18:55 / 74 Artigos publicados

J. D. SALINGER (01/01/1919 - 27/01/2010)  (LITERATURA notas) escrito em sexta 29 janeiro 2010 18:55

Como a maioria dos leitores de "O Apanhador no Campo de Centeio", adquiri uma simpatia profunda por Holden Caulfield (o protagonista) e também por Salinger, autor do livro. Li hoje a notícia de sua morte (na última quarta-feira, em New Hampshire) e confesso que senti um pesar incomum. A maior parte das mortes, ainda mais de causas naturais em um nonagenário, não me causa grandes abalos ou aquele inconformismo exagerado que os ocidentais demonstram. Aceito-a bem, sem traumas, mas o falecimento de alguém como Salinger merece um destaque, uma nota como essa, o registro de uma dívida: a que tenho (temos) para com ele por ter-nos permitido experimentar sentimentos tão intensos quando acompanhamos (e 'reacompanhamos') Holden Caulfield em sua odisséia patética por Nova Iorque e em meio aos seus (nossos) dilemas adolescentes.

Jamais esquecerei da cena final de "O Apanhador...", quando o jovem Holden - à beira do esgotamento físico e mental - senta-se em um banco e fica olhando sua pequena irmã, Phoebe, brincar no parque. Começa a chover... e ele permanece ali, cheio de felicidade ao olhar para a pequena irmã e prestes a explodir em lágrimas de dor, angústia e sofrimento humano. E chove...

 

Como os jornais noticiaram a morte do autor:

Aos 91 anos, morre escritor J.D. Salinger (Folha de São Paulo)


Muere J.D. Salinger, autor de 'El guardián entre el centeno' (El País)
http://www.elpais.com/articulo/cultura/Muere/J/D/Salinger/autor/guardian/centeno/elpepucul/20100128elpepucul_5/Tes


J. D. Salinger, Literary Recluse, Dies at 91 (New York Times)


L'écrivain J. D. Salinger est mort (Le Monde) http://www.lemonde.fr/culture/article/2010/01/28/l-ecrivain-j-d-salinger-est-mort_1298315_3246.html#ens_id=1298305

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PALAVRA NÁUFRAGA - 2010  (NOTAS & NOTÍCIAS) escrito em sexta 29 janeiro 2010 18:30

    Em 2010, publicaremos, pelo menos, um artigo novo a cada segunda-feira.


    Janeiro é mês de férias e o PN ficou de portas fechadas para recuperar as energias. Mas 2010 está aí e vamos continuar lançando nossas garrafas neste oceano eletrônico, buscando contato, se não com a civilização, pelo menos com outros náufragos deste planeta silício.
    Em dezembro de 2009, o Palavra Náufraga completou seu primeiro ano de existência. Aproximadamente 1700 visitantes únicos foram registrados, o que é um número bem acima do que eu esperava e demonstra o poder da informação livre. Neste período procurei entender o que é e para que serve um blogue, quais suas potencialidades e recursos. Confesso que sou um grande entusiasta deste modo de veicular informação (assim como vários outros recursos digitais) e vejo que os blogueiros de hoje (2010) estão dando início a algo que será muito maior ainda.
    Foram publicados 72 artigos que geraram 88 comentários. Considero a média de 6 artigos por mês razoável, pois, por ser um blogue pessoal e amador, não dá para ficar postando mensagens todo dia, ou a cada dois dias, que para mim é o número ideal de publicações para quem tem tempo ou pretensões maiores para seu blogue. Mas, independentemente da média, uma coisa que precisa ser melhorada em um blogue é sua regularidade, pois os leitores tendem a se afastar quando acessam várias vezes um endereço e não encontram nada novo. Por isso, vou tentar neste ano publicar um artigo novo a cada segunda-feira. Caso haja tempo disponível, publicarei mais, mas o leitor que se interessar por acompanhar o blogue pode criar o hábito de toda segunda-feira dar uma olhada no PN que encontrará algo novo (assim espero).
    No mais, os 72 artigos registram fatos que me chamaram a atenção, minha opinião sobre eles e servem ainda para testemunhar ações que fiz durante o ano.
    CURIOSIDADE: (re)leiam o artigo "Se eu fosse a mão Dinah" (de 02/01/2009 - clique aqui) e vejam que para futurólogo até que dou pro gasto.

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BALANÇO ANUAL  (VASTO MUNDO) escrito em quarta 30 dezembro 2009 13:58

Um dos maiores impasses que vivo em fins de ano é quando quero lembrar o que aconteceu, fazer minha Retrospectiva do que passou. Isto tudo porque minha memória é um desastre. Verdade. Lembro-me com facilidade de ideias, leituras, filmes... mas quando o assunto envolve pessoas, lugares e marco temporal aí é uma tragédia.

Se, por exemplo, tiver que lembrar como foi meu aniversário, onde passei a virada de ano, o que fiz no carnaval, preciso parar, concentrar, concentrar, concentrar... até me agarrar a flashes do que provavelmente aconteceu. Fico espantado com pessoas que se lembram de fatos ocorridos há anos, mais ainda, há pessoas que se lembram de conversas! Ainda bem que a coerência é algo que procuro cultivar obssessivamente em minha vida, caso contrário, eu seria um poço de incoerência, pois diria hoje o contrário do que afirmara ontem, isso porque eu pouco me lembro do que eu disse.

Nessas horas percebo o quanto a internet mudou o mundo. Antes, ficava dependendo de jornais e programas de retrospectiva na tv. Acontece que em fim de ano nunca tenho tempo de comprar jornais (que não justificam ser comprados nesta época, pois notícia não há, só encheção de linguiça e boataria) ou assistir a programas de tv, tão ocupados que ficamos em encontros, festas, comemorações, visitas inesperadas de pessoas distantes etc.

Aí entra o Google! Basta clicar, na hora disponível, que aparecem lá os fatos do ano, para meu conforto. É só então que consigo 'lembrar' o que aconteceu de importante (e desimportante também). Por isso insisto: viva o Google e todas as ferramentas de busca da rede. Viva a Rede!

Abaixo listo alguns endereços com tais retrospectivas para que desmiolados como eu possam participar das conversas de fim de ano sobre as coisas importantes que aconteceram em 2009.

Por falar (digitar) nisso, vou listar os CINCO fatos mais importantes para mim no ano que se encerra e convido meus três leitores a deixarem nos comentários (em 'adicionar um comentário') a sua lista dos CINCO FATOS MAIS MARCANTES DE 2009.

BOAS FESTAS! E FELIZ 2010 PARA TODOS NÓS!

LINQUES:

http://noticias.terra.com.br/retrospectiva/2009/

http://oglobo.globo.com/especiais/retrospectiva2009/

http://br.retrospectiva.yahoo.com/

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2009/.html

OS CINCO FATOS MAIS MARCANTES DE 2009

5. O prêmio Nobel perde muito de sua credibilidade ao conferir a Obama o Nobel da Paz sem que ele nada tenha feito de concreto diante dos conflitos sanguinários promovidos por eles mesmos.

4. A gripe suína revela ao mundo a fragilidade da higiene e do saneamento dos grandes centros urbanos diante das doenças de sempre (as velhas e as recém fabricadas).

3. As mortes de Michael Jackson, Lévi-Strauss, David Carradine, Lombardi...

2. A gloriosa vergonha tricolor, que jogou como campeão para sair do rebaixamento.

1. A queda do muro do sistema capitalista. Fato 'esquecido' pela mídia é a invenção do empréstimo (na verdade, invenção de dinheiro) de QUATRO TRILHÕES de dólares! 4 trilhões!?!, taí uma soma que foge da minha capacidade algébrica.

Que venha 2010.

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ROTEIRO DE LEITURA (ou COMO SE DIVERTIR NAS FÉRIAS)  (LITERATURA notas) escrito em terça 22 dezembro 2009 15:16

Em uma conversa com o amigo Hugo, professor de História, fui solicitado a listar textos da literatura brasileira que dialogassem diretamente com a História do Brasil. O assunto abre espaço para muita discussão, principalmente sobre as diferenças entre vida material, fato histórico, discurso histórico e ficção literária, que são instâncias distintas por vários fatores.

Inicialmente, considero necessário destacar que as principais motivações da leitura "literária" são:
a) o prazer estético proporcionado por ela, que pode ser sintetizado pelo apreço ao trabalho com a linguagem, com as palavras e as imagens por elas criadas;
b) no caso da poesia, há o gosto por um universo discursivo desprovido de linearidade temporal, de lógica, de coerência material, em que a linguagem se entrega à sensibilidade do olhar, do pensamento, da memória e... da própria linguagem;
c) no caso da narrativa, motiva-nos o interesse pelos enredos e pelas personagens desenvolvidos por prosadores competentes, a possibilidade de 'viajar' para lugares e épocas remotos por meio da prosa.

Digo que esses são os principais, por que apontam para a essência da literatura, que é uma expressão artística fundada na palavra. Mas é possível ler e ainda beneficiar-se utilitariamente com isso. Essa questão da utilidade é muito debatida, pois a ideia de Arte está associada a um desligamento das funções práticas e utilitárias de outras ações humanas, como a política, a culinária, a arquitetura etc.
De minha parte, não acho que as Artes, e dentre elas a Literária, sejam desprovidas de função prática, pelo contrário, mas, embora a utilidade da Literatura seja fácil de perceber, esta não é sua finalidade principal. Assim, se aqueles são os motivos principais, os secundários seriam:
a) evadir-se por meio da leitura da pressão exercida pelo social;
b) conhecer a cultura de um país, região etc.;
c) perceber as transformações na vida humana, pois o contato com textos mais ou menos antigos permite tal constatação;
d) passar o tempo com alguma distração;
e) ampliar nosso conhecimento cultural, requisito exigido em certos grupos sociais;
etc. etc.

Outra coisa, é importante compreendermos que ao longo dos séculos o conceito de literatura modifica-se, portanto, cabe aqui um lembrete (necessariamente simplista):
i) Da Antiguidade Clássica até o fim da Idade Média a ideia de 'textos literários' é abrangente, englobando as manifestações em verso (textos épicos e líricos) e prosa (crônicas, relatos, ensaios, tratados, romance medieval etc.). O conceito moderno de literatura -  aplicado a textos que possuem um arranjo especial da linguagem e são formalizados em certos gêneros específicos - não existia, portanto, falar em 'literatura' até este período implica em englobar todo tipo de texto considerado 'importante'. Nota-se que tal classificação é muito mais valorativa do que objetiva.
ii) Entre os séculos XVI e XVIII, vamos assistir a mudanças no fazer literário (tanto de autores quanto do público leitor, agora ampliado), o que começa a acentuar a distinção entre textos não-literários e literários. Nesse período, o verso, que era a forma 'literária' por excelência, passa a dividir atenção com a prosa, que era uma forma 'menor'.
iii) A partir do XVIII, o gênero romance se afirma como a faceta literária da burguesia dominante. A poesia tomará novos rumos, com novas experimentações de ordem técnica (ritmo, metrificação etc.), e em consonância com as mudanças históricas o conceito de literário passa a ter o sentido de hoje: um conjunto específico de textos ficcionais e/ou distanciados da referencialidade sócio-histórica, produzidos com a intenção clara de serem 'literários' , sendo divulgados e consumidos como tais.

Mas deixemos de lado isso e vamos à lista. Claro, como toda lista, esta aqui é subjetiva, incompleta e questionável. Mas entendam como um roteiro de leituras para quem quer boa literatura sem abrir mão do diálogo com o referente histórico e social.

Brasil Colonial: Gregório de Matos; padre Antônio Vieira.
Ruptura com Portugal e Império: Cláudio Manoel da Costa; Tomás Antônio Gonzaga.
Transição para a República: José de Alencar; Manuel Antônio de Almeida; Machado de Assis.
República Velha: Monteiro Lobato; Lima Barreto.
República Nova: Graciliano Ramos; José Lins do Rêgo.

ABAIXO, SEGUEM COMENTÁRIOS SOBRE A RELAÇÃO ENTRE TAIS AUTORES E O CONTEXTO SOCIAL E HISTÓRICO:

  • Brasil Colonial: Gregório de Matos. Há ainda os cronistas (relatos de viagem, textos jesuíticos), mas esses não são textos "literários", pois têm caráter de registro, de relato, mas são também estudados em Letras, pois são os primeiros registros escritos da fauna, flora, povo, geografia e da vida nas terras desse Novo Mundo. Há ainda  os Sermões do padre Antônio Vieira, peças oratórias que ajudam a compreender o pensamento dominante (sua afirmação e contestação), o modelo administrativo, a influência da Igreja e os dilemas aqui vividos, os Sermões impressionam também pela forma como a língua portuguesa amadurece e atinge níveis expressivos impressionantes com Vieira.

 

  • Ruptura com Portugal e Império: os autores do Arcadismo se inserem no processo de ruptura com a Corte e registram o amadurecimento do sentimento de nacionalidade que os habitantes daqui vão desenvolvendo. Se a identidade é uma construção por oposição a um 'outro', o ser europeu/português serve de contraponto ao ser brasileiro e alguns poetas afirmam isso, ao eleger como matéria de seus poemas a natureza tropical, a sensibilidade do brasileiro, nossa 'cor local' etc.


- Tomás Antônio Gonzaga: em Cartas Chilenas denuncia de modo cifrado (muda os nomes das pessoas e lugares) os desmandos e a incompetência do governador mineiro contemporâneo do autor; em Marília de Dirceu, o pastor/poeta que enamora Marília deixa transparecer os ideias ilumistas de razão, natureza e verdade (ver Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira) que faziam a cabeça de nossos intelectuais (todos os autores desse período são intelectuais e compõem o quadro administrativo das Minas Gerais).

- Santa Rita Durão (Caramuru) e Basílio da Gama (O Uraguai) são autores (distintos ideologicamente) que em seus poemas tratam da relação portugueses, índios, franceses/holandeses etc. Revelam a visão oficial sobre tais assuntos e começam a construir certas alegorias que farão parte do imaginário brasileiro: a natureza exuberante, o índio guerreiro, o colonizador predestinado a construir aqui um paraíso terrestre... Mas dê preferência ao Gonzaga.

Ler o Literatura e Sociedade (ensaios), de Antonio Candido (crítico e historiador de base sociológica) que é uma profunda interpretação do país a partir da produção literária que vai se firmando por aqui.

  • Transição para a República: os autores do Romantismo e do Realismo retratam a sociedade brasileira desse período. Os românticos idealizam a pátria, e o espírito burguês aparece aqui em sua totalidade. Autores como Bakhtin e Lukács afirmam que o romance é o gênero burguês por excelência, ou seja, é o que melhor revela a face da sociedade burguesa.


- José de Alencar: Senhora ou então Lucíola - são livros que tematizam o amor romântico, suas idas e vindas, a idealização do amor e da mulher, mas deixam entrever hábitos e costumes sociais reveladores da formação do caráter nacional.

- Machado de Assis: ler tudo dele, seus contos e romances (Brás Cubas, Quincas Borba...), Machado é o autor que melhor define o caráter nacional e que melhor radiografa a sordidez da sociedade (o apadrinhamento, o arrivismo, os preconceitos de classe etc.).

Após ler esses autores, deve-se ler o Roberto Schwarz (crítico literário marxista) que faz uma análise de Alencar e Machado que é um clássico e uma referência fundamental para o pensamento social e político do Brasil. Os livros são: Um mestre na periferia do capitalismo & Ao vencedor, as batatas. Imperdível.

Mais romances:

Memórias de um Sargento de Milícias (M. A. de Almeida): primeiro retrato crítico-humorístico do subúrbio carioca, nele encontramos o espírito festivo-carnavalesco da população, a malandragem, os terreiros etc.

O Cortiço (A. Azevedo): positivismo literário para defender a tese de que o português que vem para o Brasil pode correr o risco de rebaixar-se, devido aos prazeres da terra: a comida, a cachaça, o samba e a mulata (estereótipo típico do positivismo, mas essencial para entender como a classe dominante, ao qual pertence o autor, compreende certas questões particulares à formação nacional).

Há ainda os romances não-urbanos de José de Alencar: O guarani (romance histórico), Iracema (alegoria poética da formação do país), O tronco do ipê & O Sertanejo (regionalismo) etc.

Sobre os poetas do período, comentarei depois.

  • República Velha: os autores e obras que mais utilizaram o processo de implantação da República no país como matéria literária foram:


Monteiro Lobato: Cidades Mortas (registro da decadência do Vale do Paraíba e do ciclo do café), Negrinha e Urupês (os livros 'adultos' de um autor hoje rotulado como infantil).

Lima Barreto: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (raio X da sociedade republicana com tom de denúncia e desvelamento da hipocrisia política e cultural do país), minha dissertação de mestrado é sobre ele, vejam em http://www.scribd.com/doc/15109828/DISSERTACAONAINTEGRA

Há dele ainda o Triste Fim de Policarpo Quaresma, crítica ao espírito ufanista do início do séc. XX (Conde Affonso Celso) e uma investida cáustica na figura de Floriano Peixoto e da elite política do período.

  • República Nova: aqui é bom ler os autores do chamado Regionalismo de 30:


Graciliano Ramos: São Bernardo (análise profunda da brutalidade desumana do capitalista e do capitalismo) e Vidas Secas (retrato da ignorância socialmente fabricada e denúncia da exploração que os indivíduos bestializados sofrem).

Rachel de Queirós: O Quinze (sobre os efeitos da seca sobre os indivíduos).

José Lins do Rego: Fogo Morto (sobre o declínio dos senhores de engenho).

Há muito mais, mas esta lista já dá um painel geral suficiente para tratar do diálogo entre Literatura e Sociedade.

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BETH LISPECTOR ou CLARICE GOULART  (NOTAS & NOTÍCIAS) escrito em sábado 05 dezembro 2009 05:03

(na foto acima, Beth Goulart, eu e alunos da FERP - Pamela, Joseane, Regiane, Laysla e Anderson)

Assisti nesta sexta-feira (04/12/09) ao espetáculo de Beth Goulart sobre Clarice Lispector (leia mais), no SESC-BM.

O texto foi construído por meio de extensa pesquisa sobre a vida e obra da escritora e costura cenas e diálogos dos romances e contos de Clarice com depoimentos da própria escritora (a famosa entrevista de 77 para a TVE está lá, recriado com precisão pela atriz). Desse modo, personagens como Lóri e Ana (do conto Amor) 'dividem' o palco com sua criadora, versando sobre os temas caros ao universo de Clarice: a vida, o amor, a existência e a morte. Abundam metáforas e metalinguagem durante a hora exata de duração da peça, o resultado é asfixiante, denso e encantador.

Ler Clarice não é tarefa fácil. Embora seu texto não seja hermético, como tendem a considerar alguns, o mergulho que suas narrativas dão na alma humana e o assombro existencial que move os pensamentos de suas narradoras fazem do texto clariceano uma via-crucis ontológica ou uma bad-trip existencial. O humor da autora é raro, às vezes, imperceptível. A capacidade de recriar no palco, com corpo, voz, som e luz, a escrita de Lispector é um grande mérito do espetáculo, mas não é o único.

O cenário é de uma funcionalidade excelente. Uma cortina tomando todo o fundo do palco, três móveis (no mesmo tom que a cortina) e uma mesinha com a inseparável máquina de escrever da escritora são o suficiente para dar suporte a cenas antológicas. Por meio desse cenário voltamos ao Rio de Janeiro dos anos 50 e 60, do bonde, do Jardim Botânico, do interior das casas e da elegância feminina da escritora e suas personagens (o figurino variado conta uma pequena história da mulher brasileira do período citado).

A afinidade do conjunto (cenário, luz, trilha sonora, interpretação) atesta um nível técnico excelente que potencializa o aspecto dramático de toda a peça.

Mas isso não é ainda o principal. Em meio ao bom gosto e à qualidade técnica da montagem, destaca-se a interpretação perfeccionista de Beth Goular, que incorpora mediunicamente Clarice Lispector e assusta pela verossimilhança atingida. O repertório de gestos, olhares e vozes da atriz na composição das personagens e suas nuances funciona como uma aula prática de interpretação e arte dramática.

A honestidade, competência e carisma da atriz somados à qualidade dos demais elementos cênicos fazem desse "Simplesmente eu, Clarice Lispector" um espetáculo marcante e consagra Beth Goulart como um dos maiores nomes do teatro brasileiro. 

A severa crítica de si mesmo, Clarice Lispector, iria aprovar.

 

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